Já faz uns dez anos da sua formação. Seu objetivo era ser professor da educação pública. Até que iniciou-se por essa caminhada, mas a necessidade falou bem mais alto e logo veio o 'não' e desistiu dessa carreira que acreditava ser bastante promissora. Seu nome é Davi. Um jovem que acreditou nas mudanças e perspectivas de quem controla a educação no Brasil. Acreditou naquelas propagandas exibidas na TV e Internet que o país estava melhorando na sua qualidade de ensino. Acreditou em um país de jovens inteligentes e sábios com objetivos de tornarem ainda mais uma sociedade menos desigual e mais racional em seus atos. Mas tudo isso veio a mudar a partir do dia em que entrou em sala de aula pelo estágio e compreendeu que todos aqueles textos pedagógicos, todos as propagandas referentes a educação pública e até mesmo a sua vivência na escola quando era aluno secundarista, tudo isso estava atrasado. Até o próprio Davi viu o seu atraso, porque entendeu que seus tempos de aluno já não eram mais os mesmos vivenciados. Davi desejou ensinar o que aprendeu durante quatro anos na universidade, mas viu que o seu tempo de ensinar nem bem havia começado veio logo a encerrar. Ele buscou um outro alvo na vida e acabou o encontrando. Vive em paz e é feliz pelo que é hoje, mas lá no fundo de seu coração o desejo de ensinar nunca passou e sempre esteve em sua mente a vontade de ensinar. Como não acredita que tudo na vida é por acaso, um dia após sair do seu trabalho e ir caminhando, passou na frente de uma escola pública e logo veio em sua memória uma lembrança, a lembrança que só não foi professor, porque analisou bem o que poderia ter e estar passando e no abandono do Estado com relação aos profissionais de ensino tão excluídos. Mesmo assim não resistiu e acabou entrando naquela escola. Inclusive foi onde passou ensinando durante um ano por meio de um contrato que conseguiu uma amiga sua. Ao entrar na escola, o vigia lembrou logo 'de cara' e foi logo o cumprimentando e perguntando como estavam as coisas e a vida. Falou que tudo bem. Ficou ali por cinco minutos. Olhou ao relógio e eram 18h:20min e perguntou a que horas iniciava as aulas. O vigia respondeu que às 19h:00min. Pediu para andar nos corredores e salas de aula da escola e teve a autorização. Começou ali mesmo nos corredores e imaginou tudo aquilo cheio de alunos fazendo enorme zoada e tirando a maior 'onda'. E veio também outros pensamentos. Mas desejava era mesmo entrar em sala de aula, pois era ali o lugar onde o 'espetáculo' acontece. É ali onde torna-se o ensino um aprendizado. E ao entrar na última sala da escola, viu cadeiras bem organizadas e enfileiradas. Estava limpinha a sala. A lousa ainda tinha escritos de uma aula de Artes ocorrida no período da tarde. Sentou em uma daquelas cadeiras e começou a pensar. Ao olhar para o 'braço' daquela cadeira viu rabiscos. Era do tipo 'colas' de Matemática, Física e Química. E chamou a sua atenção esses rabiscos e começou a procurar também nas outras. Encontrou na grande maioria aquelas mesmas onde sentou-se. Mas viu outras: frases apaixonadas, palavras de baixo escalão, Lurdinha ama ... , Carlos é ... e tantas e tantas outras. Começou até a ri sozinho em uma que sentou, pois estava escrito 'aqui só senta quem tem vontade de estudar'. Isto lhe chamou bastante atenção. E saiu daquela sala e passou nas demais classes. Daqui a pouco começou a chegar alunos de repente, e ao olhar no relógio, faltava cinco minutos para tocar e iniciar as aulas. Ao voltar no portão central da escola, viu tamanha multidão de alunos. Não foi atrás saber quem eram os professores atuais daquela escola, da direção e mesmo as pessoas da secretaria. Sabia que os tempos eram outros e já não mais o reconheceriam. O vigia foi a sua sorte, pois por ele conseguiu adentrar aqueles portões da escola onde um dia ensinou. Mas também ninguém perguntou quem o era. Ao chegar no portão central, despediu-se do vigia que tornou-se naquele momento não aquela pessoa que via abrir e fechar o portão para alunos, professores e funcionários, mas um velho amigo que já não via a uns tempos, e foi embora. Ao sair da escola, olhou a sua fachada e mesmo na frente sendo um pouco escuro, percebeu algumas pichações de grupos que andam nas noites deixando as suas marcas. Ficou triste e desapontado. Percebeu que aparentemente a coisa continuava de pior a ruim. Mas aproveitou aquele momento de lembrança e pode 'viajar' no espaço onde acreditou que seria o seu futuro. Foi embora para casa encontrar-se com sua esposa e descansar naquela noite e revigorar-se para o outro dia, um novo dia de trabalho. Mesmo tendo tomado banho, jantado e conversado com sua esposa, ao deitar, a lembrança daqueles momentos ainda pouco vivido na escola voltou a sua memória. Sem arrependimento, sorriu com tudo aquilo que viu e ouviu, mas entristeceu-se por não ter visto uma única mudança literal na educação pública.
gostei Kellysson, muito bonito...vlw
ResponderExcluirMassa Kellysson, no fundo, grande parte dos 'professores' em formação ou recém formados (inclusive nós)sentem-se Davis. Ao término do curso, ao adentrarmos o Estãgio nos vemos na condição de desvalorizados, o que nos causa decepção. É precária a condição de professor no Brasil. Boa sorte p nós!!! Abraço!
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