Introdução
A Igreja Cristã Evangélica do século XXI tem o caráter contemporâneo da nossa própria sociedade pós-moderna, como é denominado e defendido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman esse termo. Busca status e riquezas, mas tem deixado de lado a mensagem da Cruz que tanto o Apóstolo Paulo pregou e por ela morreu como mártir. Ainda existem aquelas igrejas que lutam a favor da essência do Cristianismo e que tem como base o que se encontra na Bíblia Sagrada de uma forma ortodoxa e exegética, mas esse número a cada dia tem se reduzido. A mensagem Evangélica tem crescido muito no Brasil, mas não da forma como Jesus Cristo e os Apóstolos proclamaram, e sim, nos aspectos dos líderes que falam por meio e com a Bíblia nas mãos, e que na prática estão distante do que ela ensina para a vida do Ser Humano: A Salvação de sua Alma, como diz Pedro (1 Pedro 1: 9) em sua primeira carta.
É comum no cotidiano de nossa sociedade ver em carros frases do tipo ‘Deus é o segredo do meu sucesso’, ‘Pergunte a Jesus Cristo o segredo do meu sucesso’, ‘Foi Deus quem me deu’ e ‘Deus é fiel’. Parece que a fidelidade de nosso Deus está em termos uma casa, um carro, uma empresa ou um emprego bom. Se assim não for, então ele é infiel e não tem abençoado os seus filhos como disse em promessa. Só que isso não é radicalismo cristão, porque como a sociedade é capitalista, então, se não estivermos usufruindo o ‘melhor desta terra’ como filhos de Deus, o problema está nEle por não abençoar. E o nosso dever é exigir, obrigar e decretar que Ele de uma forma ou outra deve derramar as suas ‘chuvas de benção em nossas vidas’.
Em meio a isso vamos analisar e discutir o Movimento Neopentecostal e suas propostas ‘abençoadas’ para esse novo tempo que o Cristianismo Evangélico tem passado no Brasil. Iremos conhecer a origem, a história e as consequências para a Igreja Cristã Evangélica do século XXI e vermos que o seu ‘veneno’ disfarçado de ‘vacina’ tem uma chance de recuperar pessoas com problemas físicos e espirituais, mas também de enganar essas pessoas e outras com uma aparente doutrinação cristã.
Falar da origem sobre o que denomino como Movimento Neopentecostal não é simplesmente citar quando iniciou-se com data e ano de qual século, mas perceber nisso um processo histórico de longo tempo até chegarmos ao que hoje conhecemos do neopentecostalismo e suas doutrinas ‘cristãs’. Não é muito antigo, mas há muito que se dizer iniciando-se com a própria instauração de igrejas pentecostais nos EUA e de lá difundindo-se por todos os continentes, pois até o momento em que esta inicia-se, apenas igrejas históricas ou tradicionais (Batista, Presbiteriana, Congregacional, Luterana, Metodista e Anglicana) doutrinavam uma diversidade de pessoas.
O Pentecostalismo contemporâneo tem suas raízes no início do século XX e mais especificamente nos EUA no ano de 1906 na cidade de Los Angeles, estado da Califórnia, e que passou para a história como o ‘Avivamento da Rua Azusa’. No livro em versão digitalizado ‘A História do Avivamento Azusa’ de Frank Bartleman onde ele relata como um participante ativo deste avivamento, tudo começa na noite do dia 9 de Abril de 1906 na Rua Azusa com oito pessoas e que depois de alguns dias veio a ter como representante um negro, o Pr. Willian J. Seymour. E este avivamento teve influência do que vinha ocorrendo desde 1904 no País de Gales, integrante do Reino Unido, segundo Bartleman. Muitos líderes de igrejas acabaram sendo influenciados por este avivamento e que segundo o próprio autor testemunha ocular do que estava acontecendo era que “o Pentecostes chegou a Los Angeles, a Jerusalém americano.” Mais um pouco a frente do livro, o autor chega a afirmar que “a base de operação para o último Pentecostes mudou-se da antiga Jerusalém para Los Angeles. Por toda parte Deus tem criado um tremendo anseio por essa experiência.” Infelizmente notamos a exclusão do Pentecostes bíblico ocorrido em Jerusalém como dito por Lucas em Atos capítulo 2 e versículos do 1 ao 13 por um outro ocorrido nos EUA, já que este ‘é’ o ‘verdadeiro avivamento da Igreja Cristã’ para esse novo tempo. Mas quanto a isso, devemos lembrar que o Senhor Jesus Cristo afirmou e que Mateus relatou no capítulo 24 e versículo 35 do seu evangelho que “o céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão.” É com estas palavras que podemos acreditar no Pentecostes ocorrido em Jerusalém e válido ainda para o nosso tempo presente.
Na palestra ‘As conseqüências do Neopentecostalismo no futuro da igreja’ proferida pelo Pr. Sezar Cavalcante durante o 13° Encontro para a Consciência Cristã em Fevereiro de 2011, ele afirmou que com este ‘Avivamento da Rua Azusa’ surgiram de igrejas históricas em uma versão pentecostalizada pessoas como o Louis de Francescon, presbiteriano, e como missionário funda a Congregação Cristã no Brasil em 1910 na cidade de São Paulo; e em 1911 chega ao Brasil, em Belém-PA, dois missionários batistas, Gunnar Vingren e Daniel Berg, e fundam a Igreja Assembléia de Deus. Com estas duas igrejas é iniciado o movimento pentecostal no Brasil.
A divisão dessa pentecostalização no Brasil para estudos é apresentada na forma segundo o que o sociólogo de religião Ricardo Mariano cita em sua obra ‘Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil’ já na segunda edição publicada em 2005, a partir de três ondas do pentecostalismo brasileiro. Para isso, ele fez uso de Paul Freston que assim determinou as ondas pentecostais brasileiras: A primeira onda é o ano de 1910 com a Congregação Cristã no Brasil e 1911 com a Assembléia de Deus; A segunda onda é os anos 1950 e 1960 com a abrangência maior do pentecostalismo onde surgem a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), Igreja Brasil para Cristo (1955) e Igreja Deus é Amor (1962); E a terceira onda começa no final dos anos de 1970 e ganha força nos anos 1980 com a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980).
Esse momento histórico do Pentecostalismo no Brasil é importante aqui em nosso assunto pelo motivo que ele nos leva, a saber, como o que hoje conhecemos do Neopentecostalismo ganhou e conquistou essa sociedade com o seu tipo de teologia. Até este momento foram necessárias outras conquistas a serem feitas a partir da própria instauração do pentecostalismo. Como denominado por Freston anteriormente citado na forma de ondas, dentro de cada uma delas foram instauradas novidades até o presente momento daquela época desconhecidas por aqueles que pregavam o Evangelho no Brasil.
O Pr. Sezar Cavalcante afirmou na mesma palestra dita que houve três formas diferentes de pregação em cada uma das fases do pentecostalismo no Brasil. Estas fases estão de acordo com as ondas propostas por Paul Freston. Segundo Cavalcante, assim foram durante as fases: 1° Fase – Ênfase no Falar em Línguas e Batismo no Espírito Santo; 2° Fase – Ênfase na Cura e Evangelização em grande massa; e na 3° Fase – Ênfase na Cura e Teologia da Prosperidade. E ao olharmos no contexto histórico social das igrejas pentecostais de cada fase ou onda, claramente observamos esses atos ocorridos, pois o que valia agora era ver manifestações mais visíveis do Espírito Santo e as graças recebedoras de um Deus abençoador de Seu povo. Parece, afirmando com uma certeza, que ver ‘sinais e maravilhas’ acontecer eram sinais da real presença de Cristo. Assim não sendo, Ele não estaria ali presente. Ou seja, Deus enquanto criador e sustentador de todas as coisas era agora recorrido pelo o que Ele pode oferecer e não mais pelo o que Ele é. O compromisso real de arrependimento e perdão e a aceitação do sacrifício da Cruz como sendo a única maneira de ser salvo são deixados de lado e passa a valer o aqui e agora em busca da satisfação e sucesso materiais.
O Neopentecostalismo
Ao ligarmos na TV aberta das madrugadas brasileiras será fácil identificar em algumas emissoras os testemunhos de milagres, bênçãos financeiras e prosperidade material das grandes e principais igrejas neopentecostais do Brasil como a Universal, Internacional da Graça e Mundial do Poder de Deus. Mas nenhuma delas surgiu independente de uma outra igreja, e sim, de confrontos e lutas por interesses pessoais (poder).
De acordo com Ricardo Mariano, os primeiros sinais neopentecostais no Brasil aparecem na Igreja de Nova Vida, fundada em Agosto de 1960 pelo missionário canadense Walter Robert McAlister na cidade do Rio de Janeiro - RJ. E alguns anos depois quem veio a fazer parte de seus bancos foram Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares. Mas descontentes com o que estava ocorrendo na igreja, saíram, e juntamente com Roberto Augusto Lopes e dos irmãos Samuel e Fidélis Coutinho, fundam a Cruzada do Caminho Eterno, primeiro passo para o objetivo maior: A fundação da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) por Edir Macedo, Romildo Ribeiro Soares e Roberto Augusto Lopes, após uma divisão dentro da Cruzada. Só que o líder da Universal não era como pensamos quem sempre foi, Edir Macedo, e sim, R.R Soares. Mas por causa de uma nova divergência, agora entre Macedo e Soares, por causa do carisma maior de Macedo por boa parte dos fiéis e pastores, é que Soares sai da Universal e funda a Internacional da Graça (1980).
A Igreja Mundial do Poder de Deus foi fundada no ano de 1998 pelo atual e ex-membro da Universal, o autodenominado apóstolo Valdemiro Santiago, segundo o que foi escrito e publicado na edição 2151 de 28 de Janeiro de 2011 da Revista IstoÉ. Ainda segundo a matéria, após 18 anos servindo como pastor na Universal, entra em desentendimento com o líder Macedo e acaba saindo para fundar a sua própria igreja tipicamente idêntica a sua antiga casa, pois o próprio nome não nega essa caracterização adquirida. E não muito diferente das denominações neopentecostais citadas anteriormente, o alvo é cura, libertação e prosperidade financeira. Esse é o objetivo das igrejas que seguem essa linha teológica.
Ainda há um outro número de igrejas neopentecostais como a Igreja Renascer em Cristo, a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, Igreja Evangélica Verbo da Vida e outras de pequenas expressões no território brasileiro. Mas o que podemos notar também é o crescimento da participação por parte das chamadas igrejas tradicionais ou históricas no Brasil dentro desse movimento neopentecostal e de alguns líderes antes críticos e agora participantes e defensores assíduos. Será por causa de qual motivo? Para entendermos, é necessário saber o que é uma igreja do movimento neopentecostal brasileira.
Ricardo Mariano cita que uma igreja participante do movimento neopentecostal é o que se afirma quando as “suas consideráveis distinções de caráter doutrinário e comportamental, suas arrojadas formas de inserção social e seu ethos de afirmação do mundo”. Para o Dr. Augustus Nicodemus, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma no post ‘Deus, o trabalho e a prosperidade’ no blog ‘O Tempora! O Mores!’ que “a mensagem dos pastores, bispos e ‘apóstolos’ desse movimento é que a prosperidade financeira e a saúde são a vontade de Deus para todo aquele que for fiel e dedicado à Igreja e que sacrificar-se para dar dízimos e ofertas”. E para o Pr. Ciro Zibordi da Assembléia de Deus do Rio de Janeiro – RJ e colunista do Jornal 'The Christian Post' e do 'Portal OGalileo', afirma no post ‘Antipentecostais, neopentecostais, pseudopentecostais, pentecostais nominais e pentecostais verdadeiros’ em seu blog ‘Blog do Ciro’ que “dizem-se e pensam que são pentecostais, mas não querem abraçar o que dizem as Escrituras. São experiencialistas e ingênios; seguem a qualquer manifestação sem nenhuma análise, ao contrário dos crentes de Beréia. Para eles, modismos, como ‘cair no Espírito’, ‘dentes de ouro’, ‘emagrecimento’, ‘crescimento de cabelo’, ‘depósito em conta’, etc., são obras divinas, e ponto final.” Com estas afirmações diferentes de cada um desses autores, podemos notar que elas retratam, e muito bem, tanto as igrejas características do movimento neopentecostal como dos líderes que estão aderindo e inovando em suas pregações. Aqui cabe muito bem uma outra afirmação dita por Mariano, quando este diz que “com o Neopentecostalismo, portanto, a velha ‘mensagem da cruz’, discurso teológico que pregava o sofrimento terreno do cristão, caiu por terra e, sem qualquer compadecimento, foi sumariamente soterrada.” E estes ainda tem a audácia de denominarem-se como evangélicos, quando suas práticas vão e estão bem longe de um cristão fiel e digno de respeitar e obedecer a Palavra de Deus. Infelizmente com algumas atitudes tomadas por estas igrejas e líderes, os verdadeiros seguidores de Cristo tornam-se alvos de zombamento e escárnio por falta de vergonha desses que buscam poder e não o Cristo Salvador.
As Igrejas Históricas estabelecidas no Brasil que tem como fundamento o ocorrido a partir da Reforma Protestante em 1516 na Alemanha por Martinho Lutero e que defende as Escrituras Sagradas e o que nela está contido como única fonte de fé e sua permissão em seu livre exame, algumas delas, têm abandonado essa confissão e tentado se adaptar aos moldes neopentecostais para não perder os seus membros às denominações de maiores repercussões e atrações no exibicionismo de um cristianismo genérico e fácil de ter sem a necessidade de renúncia e arrependimento, acarretando desta forma num rompimento de fundamentação bíblica por experiências fabulosas, angelicais e ‘divinas’. Uma delas dentre as maiores de renome no Brasil é a Igreja Batista da Lagoinha localizada em Belo Horizonte – MG. O Pr. Renato Vargens em seu blog e no post ‘A neopentecostalização das Igrejas Históricas’ afirma dentre outras que “não são poucos os pastores de igrejas históricas que piraram de vez! Há pouco soube de um que abandonou as Escrituras em virtude da Psicologia e que acredita que a Psicanálise é a melhor maneira de ajudar o membro de sua igreja a superar os dilemas da vida. [...] A conseqüência direta disto é a proliferação de heresias cuja disseminação tem produzido a apostasia e o esfriamento espiritual de um número incontável de pessoas que dia após dia se distanciam das Sagradas Escrituras.” No mesmo blog e no post ‘Ana Paula Valadão, os piolhos e a Glória de Deus debaixo do banco’, o pastor Renato fala de uma postagem feita por ela em seu blog quando uma determinada irmã lhe escreveu dizendo que 6 meses antes do 12° Congresso de Louvor da igreja, ela teve uma visão onde Deus afirmava para o Pr. Márcio retirar os bancos da igreja porque as pessoas estavam sentando sob a Glória de Deus. E quando as pessoas passaram a ocupar estes espaços, a Glória de Deus passou a estas pessoas. O perigo em tudo isso é que a igreja evangélica brasileira do século XXI tem tornado-se secularizada, doente, inútil e visionária, pois já não mais entra em conflito com o que há no mundo, muito pelo contrário, está de mãos dadas e compartilham de práticas semelhantes, práticas místicas, fazendo com que o mundo seja amigo da igreja de Cristo, chegando a ignorar de olhos abertos as aberrações cometidas. Ainda pior é ver pregações emocionais e agradáveis a egos desejosos de ouvir somente o que vale a pena ser ouvido. A influência neopentecostal encontra-se por todos os lados e o cerco aos verdadeiros ‘bereianos contemporâneos’ tem aumentado e sufocado. Ou acontece uma nova Reforma agora dentro do Cristianismo Evangélico Brasileiro ou caminharemos como já alguns encontram-se na caminhada, de um Cristianismo endinheirado, promessas infinitas, curas e libertações exacerbadas e bem pior: Uma pregação cristã sem a mensagem da Cruz. Infelizmente, aparentemente caminhamos na segunda opção, mas cremos que o remanescente, a verdadeira Igreja de Cristo, o Senhor Jesus Cristo, jamais deixará que desapareça enquanto não se cumprir o Seu objetivo aqui na Terra.
As igrejas neopentecostais e os líderes evangélicos que tem mudado de teologia cristã bíblica para uma da ‘moda’ não abandonam a Bíblia porque são dela que retiram textos para realizarem afirmações e campanhas longe do que aquele texto bíblico de fato diz. Mas por termos uma população no Brasil que pouco ler e falando de cristãos parece que a coisa piora, é que os pregadores mais eloquentes e espertos usam e abusam de criatividades em suas campanhas de realizações ‘divinas’.
Quem nunca ouviu falar do Trízimo instituído pelo apóstolo Valdemiro Santiago? Ou da Fogueira Santa de Israel onde o fiel deve sacrificar se possível tudo pela causa de Deus, pelo bispo Edir Macedo? E da campanha dos 900 reais e a Bíblia Batalha Espiritual e Vitória Financeira por Morris Cerullo e Silas Malafaia? São com estas campanhas que essas igrejas e líderes conseguem arrecadar grandes proporções financeiras e gerando um caos espiritual na vida das pessoas que acreditam nestas soluções imediatas, rápidas, pragmáticas. Deus foi trocado pela Sua infinita Graça, Misericórdia, Justiça e Amor por meras atitudes humanas que o tornaram como se fosse um deus pagão que somente faz algo pelo seu povo a partir de determinados sacrifícios. Pior: As pessoas veem nisso como a verdadeira solução e entregam-se de corpo e alma aos mandamentos humanos. Esse não é o Cristianismo evangélico dos discípulos de Cristo e de Paulo, mas de pessoas preocupadas com as coisas deste mundo e suas riquezas e benefícios materiais. E nenhuma delas resiste ao texto bíblico quando usado de forma correta.
Recentemente, em 2011, Campina Grande – PB contou com a presença dos ‘milagres’ de Deus na cidade. Tanto a presença do apóstolo Valdemiro como de R.R. Soares fizeram do Parque do Povo uma espécie de espaço das maravilhas de Deus. O evento realizado pela Internacional da Graça foi denominado como a ‘Festa das Maravilhas’. Ao ver estas atuais concentrações de Fé e Cura, como gosta de afirmar a Universal, fico a lembrar das antigas cruzadas existentes nas ruas com objetivos evangelísticos. Tanto os louvores como, e principalmente, as ministrações da Palavra, tinham cunho de levar as pessoas não cristãs a conhecerem a mensagem da Cruz e a morte de Jesus nela e causava efeito nos cristãos a valorização deste sacrifício como demonstração maior do amor de Deus pela humanidade pecadora. Mas como os tempos mudaram, mudaram também as ministrações, quer dizer, antigas, pelo festival de curas, libertações e testemunhos de prosperidade financeira. O bispo Edir Macedo chega até a afirmar em sua biografia autorizada 'O Bispo - A História Revelada de Edir Macedo', escrita por Douglas Tavolaro e Christina Lemos que "a igreja [Universal] cresce porque o povo é beneficiado. As pessoas que mais focamos são as fracassadas. E por quê? Porque o Deus em que cremos é um Deus vivo. Em razão disso, Deus se torna obrigado a corresponder às necessidades das pessoas. Ou Deus existe e atende ao clamor delas ou Deus simplesmente não existe." Já não mais se vive o Evangelho puro e simples de Cristo.
Falar destas aberrações cria-nos até repugnância. Há tantas outras que somente em lembrar ficamos tristes porque Cristo em nenhuma delas é exaltado e adorado. Em nenhuma delas Cristo é visto como solução dos problemas que abalam a humanidade. Em nenhuma delas Jesus é apresentado como deveria ser visto. A conseqüência é ver ‘Lâmpadas consagradas e banhos de luz’; ‘Fogueira Santa dos Revoltados’; ‘Consagração da Estola Sacerdotal’; ‘Deus vai tirar você do Lamaçal’ e literalmente; ‘Tocar os Sinos para que Deus lembre-se das promessas feitas a Você’ e aumentando a cada dia mais novas campanhas, promessas e testemunhos, quando a igreja Evangélica brasileira tem caminhado de ruim a uma situação péssima por causa destas manifestações ridículas de Fé Cristã. Mas em meio a estas situações do movimento neopentecostal, será possível que elas estejam de acordo com a Bíblia Sagrada?
A Palavra de Deus causa nos verdadeiros leitores e obedientes dela um grande 'choque' espiritual. A sua leitura mostra-nos a nossa situação de pecador e que nos leva a alcançar Sua misericórdia e perdão quando do nosso arrependimento sincero. Aceitamos da forma como está e ponto final. Mas as atitudes dos que compõem o Movimento Neopentecostal têm o caráter de Acabe (1 Reis 21) que por não ter conseguido de forma legal a vinha de Nabote, sua mulher, Jezabel, procurou de forma corrupta para conseguir. Assim como Jezabel precisou mandar matar a Nabote, do mesmo jeito há muitos que matam a verdadeira e única interpretação bíblica para satisfazerem aos seus desejos. É por isso que fica fácil em argumentar sobre os assuntos mais diversos possíveis e a realização das campanhas abusivas, pois já não há mais a necessidade de seguir de forma correta. Em meio a isso fica até mesmo difícil de entender o que Jó passou em todo aquele momento de vida atribulada. Compreender os motivos que levou o Apóstolo Paulo a sentir todas as surras tomadas. Até mesmo a morte de Cristo na Cruz pode causar estranheza e uma dúvida surgir no ar: Onde Ele errou para merecer todo este sofrimento? Mas tudo isso tem um sentido para a nossa atual vida cristã. São estes exemplos reais que nos levam a crer e confiar nas palavras ortodoxas bíblicas. Assim disse Paulo (2 Timóteo 3: 12) ao jovem Timóteo na sua segunda carta a ele: "E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições."
A nossa situação de vida cristã depende de como estou vivendo a Palavra de Deus na sua aplicação. Isso não quer dizer que ficar enfermo ou ter muitas dívidas é culpa de Jesus. Essas são reações e responsabilidades humanas onde Deus não tem nada a ver. João em seu Evangelho (João 16: 33) escreveu estas palavras do Senhor: “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” E Paulo afirma (Gálatas 6: 7) que “não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” A prosperidade material não garante nada em relação a nossa salvação. Ter-la não nos torna merecedores do Céu. Caso a nossa pretensão não seja o Senhor, estaremos trilhando a estrada errada com objetivo inesperado. O próprio Jesus falando sobre tesouros ou riquezas (Mateus 6: 21, 31, 33) nos diz: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. [...] Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? [...] Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.” E o Apóstolo Paulo (Romanos 14: 17) ainda complementa: “Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” O nosso alvo é o Senhor e isso deve ser na caminhada cristã. Mas no mesmo livro da biografia autorizada, Macedo afirma: "Quando alguém faz um sacrifício financeiro, Deus fica sem opção. Ele tem a obrigação de responder, porque é sua promessa. É a sua fé." Se fosse assim, Davi (Salmo 30: 8) não tinha dito “a Ti, Senhor, clamei, e ao Senhor supliquei” quando antes no versículo 6 afirmava que “eu dizia na minha prosperidade: Não vacilarei jamais.” E nem Tiago (Tiago 5: 3) haveria de ter ridicularizado desta forma a acumulação de riquezas: “O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias.” De fato, o que Deus requer de nós não é sacrifícios e mais sacrifícios como desta forma encontra-se sendo realizada pelos líderes e igrejas neopentecostais sendo a saída de nos limparmos dos nossos pecados, mas obediência. Já não vivemos os tempos da Idade Média quando a salvação era comprada financeiramente ou mesmo das mais antigas civilizações da Terra. Mesmo assim essa prática retornou e encontra-se no Movimento Neopentecostal. O Pr. Renato Vargens em seu blog e no post ‘Similaridades entre o Paganismo e o Neopentecostalismo’ afirma sobre o assunto: “Assim como as civilizações antigas tentavam atenuar a ira dos seus deuses e ídolos com ofertas e sacrifícios, os neopentecostais o fazem com suas ofertas em dinheiro. Nesta perspectiva, os fiéis apresentam no ‘altar’ seus recursos e oferendas a fim de que milagres aconteçam em suas vidas e famílias.” O profeta do povo de Israel, Samuel (1 Samuel 15: 22), nos afirma que “tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” E Salomão (Provérbios 20: 9) em seus diversos provérbios escritos, há um onde afirma: “Quem poderá dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?”.
As consequências que a Igreja Evangélica Brasileira pode sofrer já estão atuantes em seus espaços e nas vidas dos líderes e membros. Já não mais vivemos de forma segura doutrinariamente, pois a adoção dos novos métodos como ‘manifestação de Deus’ são tão visíveis e normais que mal percebemos a sua presença. O sincretismo evangélico (condenado pelos apóstolos, pais apostólicos e reformadores) é afirmado em meio a outras crenças e costumes religiosos que a sua propagação torna-se rapidamente espalhada ao ponto das pessoas entenderem como um ‘avivamento espiritual’. A pregação da Palavra já não entra mais em conflito espiritual com aquele que assiste ou ouve, fazendo-o entender como um pecador que precisa de Jesus e arrependimento todos os dias, por ser demais humanista e psicológica, e quando não, agradável aos ouvidos. Há poucas conversões e mudanças de vida devido ao número enorme de denominações que mais causam prejuízos e falatórios do que compromisso com Deus, gerando uma visão única dentro da sociedade aos evangélicos. Um grande esfriamento espiritual habita de tal forma na Igreja que é melhor desistir ao invés de continuar na caminhada. Os prazeres são todos satisfeitos, pois falta o discernimento espiritual e o domínio próprio em resistir às tentações. Amar virou sinônimo de interesse pessoal. Odiar é sinal de ‘amor ao próximo’. Comunhão é característica somente com o Senhor Jesus e muito lá o pastor, caso ele seja legal e sempre oportuno a orar por mim e pelo que necessito materialmente. Um Corpo de Cristo desta forma tende a mais desaparecer e instituir somente o que é desejado do que continuar a lutar pela causa cristã bíblica. A existência das heresias e modismos contemporâneos é resquícios da falta de obediência e prática da Palavra de Deus.
Augustus Nicodemus no blog ‘O Tempora! O Mores!’ e no post ‘Estou com Vergonha de ser Evangélico’ afirma: “Não tenho a menor ideia onde isto vai parar, mas uma coisa eu sei: a não ser que haja uma profunda interferência da parte de Deus, um movimento de purificação e reforma, dias difíceis estão por vir aos que ainda aderem ao Evangelho puro e simples da Graça”. No mesmo blog e no post ‘A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil’ continua a dizer: “Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersos em práticas supersticiosas, me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma católica.” O Pr. Renato Vargens em seu livro ‘Cristianismo ao Gosto do Freguês’ afirma também: ”A conseqüência direta disto é o aparecimento de um novo cristianismo, cujo objetivo e propósito são exclusivamente satisfazer o freguês.” Mais a frente continua: “Na verdade, o que determina o sucesso do culto não é mais a Palavra, mas o gosto da freguesia. A igreja prega o que dá ibope, oferecendo ao povo o que ele quer ouvir.”
Enfim, Pedro afirma no fim do versículo 3 do texto bíblico básico utilizado que “faz muito tempo que o Juiz está alerta, e o Destruidor deles está bem acordado.” E cremos nisso porque o Senhor já tem o destino deles reservado caso não venham ao arrependimento. Enquanto continuarmos a perseverar na sã doutrina, mais perto estaremos de Seu propósito, de Seu Amor, de Sua Graça, de Sua Palavra.
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